Entenda a crise política e financeira do Corinthians
Memphis Depay fora do clube, transferban, dívida milionária e denúncias contra a diretoria. O que está acontecendo dentro do Parque São Jorge?

Foto: Rodrigo Coca / Agência Corinthians
A crise política e financeira do Sport Club Corinthians Paulista foi agravada neste mês de agosto após o clube anunciar em nota oficial a não renovação com o atacante Memphis Depay. O assunto tomou as redes sociais e a indignação dos torcedores corinthianos ganhou palco central no anúncio sobre a saída do holandês. Com a revolta, denúncias sobre a gestão do atual presidente Osmar Stabile e sua diretoria, feitas por movimentos dos torcedores e associados do clube, vieram à tona.
O contexto da passagem de Memphis Depay
Memphis chegou em setembro de 2024 ao Corinthians, com contrato válido até 31 de dezembro de 2026. Na época, o processo de formalização da contratação durou apenas quatro dias, com forte atuação do executivo Fabinho Soldado, do ex-presidente Augusto Melo e do setor financeiro, além de um grupo de advogados para acelerar os trâmites.
Memphis Depay recebia cerca de R$ 3,5 milhões mensais em vencimentos básicos (envolvendo salário e direitos de imagem). O valor podia chegar a patamares próximos de R$ 6 milhões mensais ao contabilizar custos estruturais de sua estada, como moradia em hotel de luxo, segurança, carros blindados e cozinheiro, além de luvas e metas contratuais. A patrocinadora máster auxiliava no custeio de parte do valor mensal.
O alto custo do jogador, que representava o maior salário do elenco e o segundo maior do futebol brasileiro, causou revolta por parte dos torcedores, já que o clube passava por um período conturbado de dívidas.
A não renovação e o desfecho da negociação
O Corinthians anunciou na terça-feira (11) por meio de nota oficial a não renovação com o atacante Memphis Depay. Com isso, o jogador não atua mais pelo clube. A decisão encerra uma negociação que se arrastou desde a pausa para a Copa do Mundo e teve inúmeras divergências entre o estafe de Memphis e a diretoria corinthiana.
Os dois lados haviam chegado a um acordo em 26 de julho e o documento estava há três dias pronto para ser assinado. Contudo, segundo Stabile, a necessidade de manter o equilíbrio financeiro atual e futuro do Corinthians inviabilizou a realização de um novo compromisso da magnitude que a renovação exigiria, reforçando a importância de preservar a sustentabilidade financeira do clube.
Foi o encerramento de uma negociação levada ao limite pelo presidente corinthiano, acusado nos bastidores de esticar a corda ao máximo nas negociações e de levar mais em conta aliados políticos do Parque São Jorge do que recomendações técnicas do departamento de futebol.
A grave crise financeira
O Corinthians amarga atualmente uma dívida bruta de R$ 2,7 bilhões e enfrenta dificuldades para honrar compromissos do dia a dia e fortalecer a estrutura do futebol. De acordo com os documentos disponíveis na Política de Transparência do clube, a dívida é composta por:
- R$ 979,7 milhões em dívidas de curto prazo (com vencimento em até 12 meses);
- R$ 1,77 bilhão em dívidas de longo prazo;
- R$ 642 milhões devidos à Caixa Econômica Federal pelo financiamento da Arena em Itaquera (saldo de encerramento de 2025).
Apesar de ter vencido o Paulistão e a Copa do Brasil, o Corinthians não conseguiu emplacar um faturamento superior aos rivais e encerrou o balanço de 2025 com receita de R$ 971 milhões e déficit de R$ 143,4 milhões.
Além disso, o clube possui uma dívida estimada em R$ 42 milhões com Memphis Depay em bônus por metas, gols, assistências e premiações. Com a decisão de não renovar, o parcelamento do débito (que seria estendido até 2028) caiu. Com juros e correções, o montante calculado pode atingir R$ 77 milhões e ser cobrado à vista na FIFA.
O Corinthians também possui três transfer bans ativos (dois da FIFA e um da CBF) que totalizam R$ 21,5 milhões em débitos, impedindo o registro de novos atletas.
Crise política, protestos e investigações do MP
Diante da crise, torcedores lançaram o Movimento Libertação Já, mobilizando um abaixo-assinado que exige a intervenção da Justiça no Parque São Jorge. A ação é um desdobramento da campanha "Expulsão Já", que reuniu mais de 50 mil assinaturas em abril para banir os ex-presidentes Andrés Sanchez, Duilio Monteiro Alves e Augusto Melo do quadro associativo.
O movimento exige o afastamento cautelar dos líderes dos principais órgãos internos e uma apuração independente das contas:
- Osmar Stabile: Presidente da diretoria;
- Romeu Tuma Júnior: Presidente do Conselho Deliberativo;
- Miguel Marques e Silva: Presidente do Conselho de Orientação (CORI);
- Haroldo Dantas: Presidente do Conselho Fiscal.
Paralelamente, a atual gestão é investigada pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP). Uma das frentes apura o pagamento de R$ 676,6 mil à Mega Assessoria Operacional Ltda. por serviços de segurança prestados sem autorização da Polícia Federal. Outra suspeita envolve o uso de R$ 586,9 mil dos cofres do clube para custear a segurança particular de Osmar Stabile via empresa Bear Security.
As petições públicas organizadas pela torcida estão disponíveis nos sites intervencaofiel.com.br e forastabile.com.br. A medida judicial solicitada busca uma intervenção provisória restrita à administração, usando como referência o processo ocorrido no Bahia entre 2011 e 2013.
Denúncias apresentadas por organizações e associados
Movimentos de torcedores e associados como o "Salve o Corinthians" e o associado Cacá Catalão (do "Canal do Povo Escolhido") expuseram uma série de irregularidades atribuídas à gestão:
- Patrocínio: Notificação da Promotoria da Infância e da Nike em relação ao patrocínio do site Fatal Models.
- Concessão no PSJ: Aluguel de bar no Parque São Jorge por R$ 2 mil mensais, sob suspeita de apadrinhamento político.
- Futebol Feminino: Nomeação da filha de um conselheiro, sem experiência prévia na área, recebendo mais de R$ 1 milhão no período.
- Alimentação: Cobrança de R$ 17 mil pelo fornecedor "Poderoso Espetão" para refeições no clube.
- Insumos: Compra de cerca de 100 caminhões de areia nos últimos seis meses, somando R$ 150 mil.
- Plano de Saúde: Seguro de saúde dos funcionários contratado por meio de um corretor ligado a conselheiro, gerando comissão estimada em R$ 150 mil mensais.
- Hospedagem: Gasto de R$ 140 mil em hospedagem em Chapecó (SC), valor 65% superior ao pago por hotel 5 estrelas no Rio de Janeiro.
- Outras despesas: Notas fiscais do estabelecimento "Pesqueiro Sossego" e gasto de R$ 300 mil em faixas e medalhas comemorativas para conselheiros.









